Eu tenho tanto para falar sobre você e sobre coisas que eu queria, há muito tempo, que você soubesse. Com o passar dos dias, me surgia uma vontade grande que você soubesse que tudo o que eu senti – e confesso que ainda sinto – é real. Mas me questiono muito o porquê por trás disso.
Eu acho que eu queria tanto provar isso. Queria provar essa verdade. Era tão real essa ideia de querer provar, mas, quando estamos juntos, eu simplesmente fujo dela. E eu fujo, acho que inconscientemente, na falsa ideia de que, se eu parar para falar com você sobre todos os sentimentos que envolvem essa conexão, isso vai te aproximar. Penso que vai passar a ideia de que eu quero que você fique.
E, por mais que eu diga para mim o tempo inteiro, quando nós não estamos juntos, que eu quero que você fique na minha vida, eu sei que isso não vai acontecer. E, no fundo, bem lá no fundo, embaixo de toda essa coberta, de toda essa penumbra, eu também sei que não é justo que você fique.
Não é justo. Não porque eu ache que não teríamos coisas boas para partilhar, mas não é justo comigo. Não é justo comigo porque eu sei que estou no meu maior momento de expansão. Estou no meu momento de aprendizado. Embora o nosso cruzar de caminhos tenha contribuído, de certa forma, para esse meu expandir, eu me conheço quando estou apaixonada e em uma relação. E eu sei que preciso reaprender a organizar esse tipo de sentimento dentro de mim antes de me entregar a “algo que fique”, porque eu sou muito falha comigo mesma quando estou neste estado. E, veja, não é por você.
E, por acaso, algo me diz que não é isso que você quer. Eu também sei que não é o momento da sua vida para isso. Todos os sinais me confirmam.
Então, reconheço o colocar dessa situação nos nossos caminhos, o motivo pelo qual aconteceu, as coisas boas que isso despertou, a expansão que isso motivou e ainda motiva. Porque, diariamente, eu reflito sobre tantos questionamentos que uma situação despretensiosa me levantou. E acho que, pela primeira vez, foram questionamentos que eu fiquei feliz em responder, porque as respostas eram meus guias, foram meus guias e, de certa forma, me ajudam a seguir para onde eu quero ir.
Mas eu reconheço como estar passando por tudo isso dentro de mim me faz agir de uma certa forma que nem eu mesma entendo. Vejo que é uma ferramenta de proteção, uma tentativa de proteção em meio a tanta ansiedade das incertezas. Tentativa até um pouco falha, onde esse distanciamento de você não me faz não sentir.
E eu sinto.
Eu sinto muito.
Eu não queria ser aquela pessoa que chega e diz: “Eu já vivi muitas coisas, e os meus traumas me fazem ser assim. O meu medo das frustrações me fazem agir assim.” Mas todos nós somos assim. Nós somos frutos das situações que aconteceram conosco também. Eu estou no processo de praticar o “somos aquilo que fazemos com o que fizeram conosco”.
Então, de repente, eu pude perceber que tenho quase como se fosse vício no sentimento de sofrimento e nostalgia que vem quando eu olho para a situação e penso: “Nós tínhamos potencial. Seria muito bom se tivesse dado certo. Eu queria tanto que isso desse certo.”. No sentido de: eu queria que, hipoteticamente, estivéssemos em um cenário perfeito para que pudéssemos querer fazer dar certo. E, se fosse nesse cenário perfeito, eu iria querer que desse certo.
Mas nós não estamos no cenário perfeito, isso não existe. Eu sei que é uma ilusão. Também é um reflexo das expectativas que foram criadas, de maneira voluntária e conscientemente irresponsável por mim, por que desde o princípio, eu sempre soube que nós não estávamos ali com a mesma entrega e busca.
E, por falar em entrega, tenho questões sobre minha entrega. Embora esteja a analisar e reanalisar este tópico, quase como um matemático em busca de onde errou o cálculo – Como se entrega honesta fosse receita para gerar impacto o suficiente de recíproca do mesmo nível no outro.
Eu entrego muito a partir do momento em que recebo e, na tentativa de garantir aquela recíproca, eu entrego antes, na ideia de receber. Vejo que muito disso vem na tentativa incessante de querer que o outro saiba que eu estou disposta a entregar tudo o que há de mais puro em mim e no anseio de ser vista pelo outro com um olhar puro.
Eu sei o quanto aquilo ocupa espaço dentro de mim. Junto disso, vem o medo de ver tudo aquilo passar despercebido, quase como uma obra de arte milimetricamente desenhada para impressionar alguém e ver a pessoa simplesmente ignorar aquilo tudo. Quando eu começo a entregar, entregar, entregar, e não vejo a reciprocidade, eu vejo que aquilo já diz muito.
Então dentro de mim, eu estou a jorrar rios de emoções, no campo das ideias o espaço é praticamente todo ocupado pelo outro. Mas na prática, eu vou aos poucos fugindo e cortando.
Dentro dessas muitas perspectivas, eu tenho a consciência de que, justamente por ter meus conflitos, eu não posso exigir, cobrar ou esperar por mudanças que eu tenho certeza que não seriam o que me faria ficar, por que eu, no fundo, sempre soube que eu não iria ficar. Não posso querer cobrar que você seja para mim o que eu não estaria disposta a ser para você. É injusto.
Embora meu ego fosse adorar. Meu ego iria adorar ver você me querendo tanto quanto eu te quis. De verdade, ia adorar saber que você queria estar passando o tempo comigo e que não era somente para ter trocas íntimas, mas também trocas diversas. Isso ia satisfazer o meu ego, eu ia conseguir o que eu queria. Mas é injusto, a partir do momento em que eu sei que eu queria aquilo por agora. Eu não queria aquilo como algo que eu iria querer que ficasse na minha vida com a mesma profundidade que minha mente idealizou no campo das ideias.
Então, em um primeiro momento, eu me chateio, me frustro. Mas, em contrapartida, eu sei quem sou e como tenho esse mau hábito de querer quase que me enganar, dizendo que eu quero, quando, na verdade, eu só quero provar para mim mesma coisas que nem eu sei quais são. Quando, na verdade, eu só quero validar questões que eu preciso enfrentar, que eu preciso resolver sozinha. Sabe? É um puro reflexo meu.
E, claro, você aproveita. Está certo, no seu lugar eu aproveitaria também.
Eu acho que, como eu disse, eu tenho muitas coisas boas para falar. Tenho muitas coisas importantes que aconteceram para mim. Quero poder continuar torcendo pela sua caminhada, pela sua jornada.
Eu acho que tenho, principalmente, que agradecer, justamente por ter calhado de ser você nessa posição de, despretensiosamente, me fazer aprender sobre tantas coisas, sobre mim.
Poucas vezes eu me permiti esse espaço, de deixar que a relação me ensinasse o que eu precisava aprender sobre mim. Porque realmente somos espelhos.
Eu acho que esse é o melhor presente que alguém pode dar para o outro. Conseguir despertar no outro um olhar diferente e melhor sobre si, mesmo não tendo feito isso voluntariamente.
Foi o que simbolizou dentro de mim. Claro, isso já era um processo meu, e foi um pontapé, um gatilho, digamos assim. E um certo sofrimento também.
Mas eu tenho certeza de que guardarei isso como um passo muito positivo, porque, a partir dessa situação, me surgiram tantas outras reflexões e mudanças que me conectaram com quem eu realmente quero me tornar.
A minha busca por me reconectar comigo tem sido intensa, e a vida me trouxe você como um lembrete disso. Um lembrete de muitas coisas: do que não devo fazer, de como não devo me tratar e de como preciso ter mais calma para tudo.
Foi um momento de resgate da minha fome pelos meus sonhos, da necessidade de acreditar mais em mim e de realizar os meus objetivos. De enxergar o quão grandiosa eu sou e o quanto preciso valorizar essa energia que existe dentro de mim. Essa minha energia de entrega precisa ser redirecionada.
Não tem como não ver isso como algo positivo.