Você não me deixou entrar ainda. Não sei o que já te aconteceu, onde já te doeu ou seja lá o que for que te fez ficar assim, mas você ainda não me deixou entrar, não é? Reconheço um medroso quando vejo. Tu tens medo de me deixar entrar, medo que eu pise com os sapatos sujos no seu chão gelado, que deixe café cair no seu sofá ou derrame farelos de pão na sua mesa. Mal tu sabes que comprei pantufas novas para andar aí, que uso prato para comer pão e o café tomo na mesa, usando um pires. Depois de tudo, varro, passo pano, limpo a mesa, rego as plantas e abro as janelas. Faz tempo que tu não abre a janela, não é? Está escuro por aqui, pura penumbra. Não tem problema, abre a janela e deixa meu sol entrar, vai, verás que minhas intenções são boas e calorosas. Deixe que eu traga um quadro novo, uma vela aromática e um conjunto de porta-copos de capim dourado. Deixe que eu lhe traga novos tapetes de crochê, que eu ligue o som e dance com você, enquanto o sol bate e colore de bronze nossa pele pálida. Se quiser, te ensino a cantar, te faço cafuné e depois vamos à padaria de mãos dadas. Deixa eu te mostrar os bem-te-vis pela manhã na sacada, as borboletas pela tarde e os grilos à noite. Deixa eu perfumar sua cozinha no domingo, faço seu prato favorito e um suco de maracujá, de sobremesa um mousse de chocolate meio amargo, porque sei que gostas. Me conta da sua família, quero ver os álbuns de foto dos seus avós, me conta quem está preso, quem tem anos de casamento e qual vestibular sua prima prestou. Me conta teus medos, se é de insetos ou do escuro, se é de fantasmas ou da vida. Me diz seu sorvete favorito, o formato de macarrão que mais lhe agrada, me conta se Capitu traiu ou não traiu Bentinho. Quero saber qual vizinho reclama do barulho, qual música te arrepia o corpo e qual sapato tu mais gostas. Gosto da fechadura eletrônica da sua casa, ela faz um barulho bonitinho quando abre, além do seu tapete de entrada que é fofinho.
Apesar de ter planejado tudo, fica tranquilo, espero seu tempo. Eu puxo um banquinho, sento aqui no corredor e espero você se trocar antes de abrir. Posso até terminar de ler Capitães da Areia, pra te dar mais um tempinho. Só não faças da minha visita um vão.
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Você não me deixou entrar ainda. | by Carolina Ferreira | Apr, 2026
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